A Febre Reumática (FR) ou Doença Reumática (DR) é um agravo que ocorre em crianças principalmente na faixa de idade escolar e adolescentes, sendo responsável por um número significativo de cirurgias cardíacas para tratamento das complicações decorrentes dessa enfermidade. Embora essa doença já tenha praticamente desaparecido nos países desenvolvidos, no Brasil, ainda temos uma alta incidência, com grave incapacidade física e alta mortalidade. Entre as doenças que repercutem na saúde das crianças, a FR assume proporções preocupantes, não só pelas sérias lesões cardíacas, como também pelo alto custo imposto ao setor público no seu tratamento, através de delicadas e sofisticadas cirurgias cardíacas.

A ocorrência da doença está associada à alta incidência de infecção de garganta causada pelo Streptococos b hemolítico do grupo A (uma bactéria que causa amigdalite) nas regiões aonde é mais precária a situação de vida e saúde da população. É também necessária uma predisposição individual para a ocorrência da FR. O tratamento correto das amigdalites com antibiótico adequado e pelo tempo certo previne a doença reumática.

Os sintomas da febre reumática são variados e podem acometer as juntas, o coração, o sistema nervoso e a pele. Em geral, as dores nas juntas são de forte intensidade e impedem que a criança até mesmo consiga andar. A atuação específica do setor saúde, no que se refere à prestação de assistência médica adequada é reconhecidamente uma ação que pode determinar um impacto importante, com diminuição do número de casos e conseqüente diminuição da necessidade da utilização dos serviços de maior custo e complexidade. O diagnóstico da infecção causada pelo Streptococos e o seu tratamento correto, constituem medidas potencialmente responsáveis pela redução do número de casos. Cabe ao pediatra tratar adequadamente as infecções de garganta a fim de prevenir a ocorrência da Febre reumática em crianças suscetíveis.

Apesar do desenvolvimento sócio-econômico da nação estar intimamente relacionado com a diminuição da FR, a experiência em outros países, como por exemplo a Costa Rica, mostra que sem grandes melhorias no seu nível econômico, mas com uma adequação do seu sistema de saúde, em 10 anos, houve praticamente a erradicação da FR do país.

O momento atual exige a capacitação e treinamento de profissionais de saúde, com enfoque na prevenção da doença, ou seja, no controle e tratamento adequado das infecções de garganta. De maneira complementar, orientar o diagnóstico precoce e o início do tratamento específico para prevenir as recidivas, responsáveis pelas seqüelas da doença e internações repetidas.

A Febre Reumática pode ser erradicada, desde que haja uma efetiva mobilização nesse sentido. Os custos sociais e pessoais são justificativas indiscutíveis para a necessidade de implantação do Programa de Prevenção da FR em todo o território nacional. Uma “simples” amigdalite pode mudar o futuro de uma criança e ela deve ser sempre levada ao pediatra para o reconhecimento da infecção estreptocócica e o tratamento adequado dessa infecção.

Blanca Elena Rios Gomes Bica
Profª Assistente do Depto de Pediatria da UFRJ
Reumatologista pediátrica